Política não se dará mais dentro dos partidos, mas nas ruas

Opinião: Política não se dará mais dentro dos partidos, mas nas ruas

VLADIMIR SAFATLE 

publicado na Folha de S. Paulo no dia 22 de junho

 

Não haverá mais política como conhecemos até agora. Daqui para a frente ela irá em direção aos extremos.

Uma sociedade, quando passa por mobilizações populares como as que vimos nas últimas semanas, fica para sempre marcada.
Nesse sentido, devemos nos preparar para um embate de outra natureza. Quando a política popular ganha as ruas em uma reação em cadeia, todo o espectro de demandas sobe à cena.

Uma contradição de exigências que pode dar a impressão de estarmos em um buraco negro da política. No entanto, não há que temê-la, pois tal contradição é a primeira manifestação de um novo conflito de ideias que servirá de eixo de combate.

Por isso, a política brasileira não se dará mais no interior de partidos que há muito perderam sua função de caixa de ressonância dos embates sociais. Ela será decidida nas ruas.

Foi assim em países como Tunísia e Egito. As manifestações foram engendradas por estudantes esquerdistas e sindicatos com demandas parecidas com as nossas: democracia direta, reconstrução de serviços públicos gratuitos e de qualidade, Estado de bem-estar social, luta contra corrupção e corruptores.

No entanto, rapidamente o descontentamento mobilizou também salafistas e setores muçulmanos nacionalista-conservadores.

De fato, há uma luta em torno do rumo da maior mobilização popular recente do país. Por exemplo, setores conservadores da imprensa nacional, amigos até a hora da morte do imaculado são Demóstenes Torres, tentam impor sua velha pauta de sempre, a saber, indignação seletiva contra corruptos, mas silêncio tumular contra os corruptores (empreiteiras, bancos e empresários).

Mas que os que lutaram durante todos esses anos por universidades mais democráticas, mais impostos para os ricos e mais serviços sociais para os pobres, direitos iguais aos homossexuais e causas ecológicas radicais recolham suas bandeiras, eis algo que a história nunca perdoará.

Agora é hora de compreender que o verdadeiro embate começou e será longo.

Um dia teríamos que nos confrontar duramente com aqueles que têm o despudor de se chamarem “nacionalistas” em uma época em que “nação” só significa fronteira, limite, expulsão da diferença e defesa dos bons valores preconceituosos da “nossa terra”.

Não temos problemas em nos declararmos sem nação, sem pátria, sem identidade, porque nos apegamos a um desejo de igualdade que desconhece fronteiras.

Mas, e isso eles verão, nosso desejo é mais forte. Agora não é hora de medo. Agora é hora de luta.

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Proposta concreta, por Vladmir Safatle

Publicado na Folha, dia 18 de junho

Há várias maneiras de esconder uma grande manifestação. Você pode fazer como a Rede Globo e esconder uma passeata a favor das Diretas-Já, afirmando que a população nas ruas está lá para, na verdade, comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.

Mas você pode transformar manifestações em uma sucessão de belas fotos de jovens que querem simplesmente o “direito de se manifestar”. Dessa forma, o caráter concreto e preciso de suas demandas será paulatinamente calado.

O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.

Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.

Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfu-recida de porcos.

Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de “grupelhos protorrevolucionários”. Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.

Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.

A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.

Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.

Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o “direito de ir e vir”. Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.

Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.