Também somos o chumbo das balas

publicado em Revista Época em 30 de junho

O Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré

 

por ELIANE BRUM

 

Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.

O que você faz?

Nada.

Você não faz nada porque não aconteceu com você. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo, porque sabe que não apenas não aconteceu, como não acontecerá com você. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. Isso só acontece na favela, com os outros, aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados.

Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.

Os brasileiros foram às ruas, algo de profundo mudou nas últimas semanas, tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. E, se esse algo ainda mais profundo não mudar, nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação, porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um.

Quando a polícia paulista reprimiu com violência os manifestantes de 13 de junho, provocando uma ampliação dos movimentos de protesto não só em São Paulo, mas em todo o Brasil, houve um choque da classe média porque, dessa vez, muitos daqueles que foram atingidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram seus filhos, irmãos e amigos. Como era possível que isso acontecesse?

Era possível porque a polícia militar – e não só a de São Paulo, como se sabe e tem se provado a cada manifestação, nas diversas cidades – agiu no centro com quase a mesma truculência com que cotidianamente age nas favelas e nas periferias. Quase com a mesma truculência, porque algumas vozes se levantaram para lembrar que nas margens as balas são de chumbo. Balas de borracha, como foi dito em tom irônico, seria um “upgrade”. A polícia fez, portanto, o que está acostumada a fazer no dia a dia das periferias e favelas, o que é ensinada e autorizada a fazer. E muitos policiais devem ter se surpreendido com a reação da opinião pública, já que agem dessa maneira há tanto tempo e as reclamações em geral ficavam, até então, limitadas às mesmas organizações de direitos humanos de sempre.

E então veio a Maré. E, em vez de balas de borracha, as balas eram de chumbo. Em vez de feridos, houve mortos. E, ainda que o massacre tenha tido repercussão, especialmente no Rio de Janeiro, ela foi muito menor e menos abrangente do que quando a violência foi usada no centro de qualquer cidade. Por quê? Seriam os brasileiros da Maré ou de outras favelas menos brasileiros do que os outros? Seriam os humanos da Maré ou de outras periferias menos humanos do que os outros? Sangrariam e doeriam os moradores da Maré menos do que os outros?

É preciso que a classe média se olhe no espelho, se existe mesmo o desejo real de mudança. É preciso que se olhe no espelho para encarar sua alma deformada. E perceber que essa polícia reflete pelo menos uma de suas faces. Parece óbvio, do contrário essa polícia não seguiria existindo e agindo impunemente, mas às vezes o óbvio é esquecido em nome da conveniência.

É fácil renegar a polícia militar como algo que não nos diz respeito, como sempre fazemos com as monstruosidades que nos envergonham. Sem precisar assumir que essa polícia existe como resultado de uma forma de ver a sociedade e se posicionar nela – uma forma que perpetua a desigualdade, dividindo o país entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito porque, mesmo que trabalhem dura e honestamente, são criminalizados por serem pobres.

No momento em que os mortos da Maré incomodam menos que os feridos da Paulista ou de outros lugares do Brasil, se justifica e legitima a violência da polícia. Se justifica e legitima de várias maneiras – e também por aqueles que sentem menos a violência da Maré do que a da Paulista, apesar de ela ser numa proporção muito maior, a começar pela diferença das balas. Se justifica e se legitima e se perpetua porque, ainda que não confessado, mas claramente expressado, vive-se como se os mais pobres, os que moram em favelas e periferias, pudessem ter suas casas invadidas, seus bens destruídos e suas vidas extintas.

Se fosse você ou eu na Maré, reconheceríamos os rostos dos que tombam e estaríamos lá, aterrorizados com a possibilidade de sermos os próximos a virar estatística. O garçom que caiu morto com um tiro na cabeça é Eraldo Santos da Silva, 35 anos. Quem estava no restaurante contou que os policiais do BOPE atiraram no transformador para o local ficar às escuras e então mudar a cena do crime, retirando as cápsulas do chão. O garoto de 16 anos que foi assassinado se chama Jonatha Farias da Silva. A polícia disse que ele estava com uma arma na mão, mas várias pessoas que o conhecem desde criança afirmam ser impossível. Jonatha é descrito como um menino tímido e muito sozinho que perdeu a mãe de tuberculose aos 11 anos e vivia com um irmão mais velho num quarto de quatro metros quadrados. Engraxava sapatos e vendia biscoitos nos congestionamentos da Linha Vermelha para sobreviver, enquanto sonhava com ser mecânico. O motorista ferido quando dirigia a van alvejada por tiros é Cláudio Duarte Rodrigues, de 41 anos. Foi levado ao hospital por moradores, mas despachado para casa com a bala ainda alojada no glúteo. Só depois uma ONG obteve a promessa de uma ambulância para buscá-lo. Você ainda poderia ser a empregada doméstica que ouviu os policiais arrombarem a porta da casa do seu vizinho, ouviu seus gritos – “Me larga! Socorro!” – e o viu ser retirado de lá, dentro de um saco preto.

Mas isso não acontece com você, nem com seus filhos. Nem comigo. Mas, ainda que não aconteça, como é possível sentirmos menos? Ou mesmo não sentir? Ou ainda viver como se isso fosse normal? Ou olhar distraidamente para a notícia no jornal e pensar: “mais uma chacina na favela”?

Em que nos transformamos ao sentir menos a morte de uns do que a de outros, a dor de uns do que a de outros, mesmo quando olhamos para uns e outros apenas pela TV?

O que torna isso possível?

É preciso parar e pensar. Porque esses, que assim morrem, só morrem porque parte da sociedade brasileira sente menos a sua morte. É cúmplice não apenas por omissão, mas por esse não sentir que se repete distraído no cotidiano. Por esse não sentir que não surpreende ninguém ao redor, às vezes nem vira conversa. Essa polícia que mata nos reflete, por mais que recusemos essa imagem no espelho.

São vários os discursos que se imiscuem na vida cotidiana e penetram em nossos corações e mentes, justificando, legitimando e perpetuando a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. Um desses discursos é a afirmação, que nesse caso foi assumida e amplificada por parte da imprensa, de que a polícia teria admitido que “três moradores mortos eram inocentes”. A frase tem tom de denúncia, ao afirmar que a polícia reconheceu a morte de “inocentes” na Maré. A declaração expressa, de fato, a ideia de que ao menos esses três não deveriam ter sido assassinados. Por oposição, cabe a pergunta: e os outros deveriam?

Essa frase diz ainda mais: se “três são inocentes”, aceita-se automaticamente e sem maior investigação que os demais seriam suspeitos de tráfico e outros crimes – e destes, quase nada ou nada é contado. É nesse ponto que se oculta algo ainda pior contido nesse discurso, que é a aceitação da pena de morte de suspeitos. Ou seja, os supostamente “não inocentes”, os supostamente “bandidos”, “traficantes”, “vândalos” poderiam, então, ser mortos? É isso o que se diz nas entrelinhas. Mas não seriam todos “inocentes”, até julgamento em contrário, dentro do ritual jurídico previsto pelo Estado de direito? Sem contar que a lei brasileira não prevê a pena de morte de julgados e condenados por crimes, nem sequer os hediondos. Mas o Estado, com o aval de uma parte significativa da sociedade, executa suspeitos.

A aceitação dessa quebra cotidiana da lei pelo Estado está presente na narrativa dos acontecimentos – e a imprensa tem um papel importante na reprodução desse discurso: “três deles eram inocentes”, “morreram em confronto”, “morreu ao resistir à prisão”, “troca de tiros” são algumas das expressões entranhadas nos nossos dias como se tudo explicassem. Como se isso fosse corriqueiro – e não monstruoso. Mesmo para a morte de “inocentes”, fora as mesmas vozes dissonantes de sempre, se atribui expressões como “efeito colateral”. E parece ter sido fácil para a classe média aceitar que o “efeito colateral” é a morte dos filhos, dos irmãos, dos pais e das mães dos pobres.

Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.

A palavra “confronto” encobre forças desiguais – e o que tem sido chamado de “confronto” seguidamente não é o que diz ser. Mesmo em confrontos de fato trata-se o que é desigual como se fosse igual, também simbolicamente. Como se uma das forças em confronto não encarnasse o Estado e tivesse, portanto, de respeitar a lei e seguir parâmetros rígidos de conduta – e não igualar-se a quem supostamente está no outro lado. Como se a polícia, como aconteceu na Maré, tivesse autorização para se vingar pela morte – lamentável – do sargento do BOPE, entrando na favela e arrebentando. E o sargento do BOPE Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, 42 anos, é também uma vítima desse sistema avalizado por uma parte significativa da sociedade dita “de bem”.

A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?

A autorização para a morte dos pobres é de cada um que sente mais as balas de borracha da Paulista do que as balas de chumbo da Maré. Sentir, o verbo que precede a ação – ou a anula.

“Estado que mata, nunca mais!” é o chamado de um ato ecumênico marcado para as 15h desta terça-feira (2/7), com concentração na passarela 9 da Avenida Brasil, pelos moradores da Maré. A manifestação, anunciada como “sem violência e pacífica”, pretende lembrar os 10 mortos de 24 e 25 de junho, inclusive o sargento do BOPE. “Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares, como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos. Responsabilizamos o governador do Estado e o secretário de Segurança Pública pelas ações policiais nas favelas. Exigimos um pedido de desculpas pelo massacre e o compromisso com o fim das incursões policiais nas favelas cariocas, sustentadas no uso do Caveirão e de armas de guerra”, diz a chamada na internet.

Este ato poderá se tornar um momento de inflexão nos protestos que atravessam o país. Saberemos então se os cidadãos das favelas estarão sozinhos, como sempre, ou acompanhados pelas mesmas organizações de direitos humanos de sempre – ou se o Brasil está, de fato, disposto a começar a curar sua abissal e histórica cisão.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras)

 

 

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A tinta vermelha: discurso de Slavoj Žižek aos manifestantes do movimento Occupy Wall Street

publicado no blog da editora Boitempo em 11 de outubro de 2011

Slavoj Žižek visitou a Liberty Plaza, em Nova Iorque, para falar ao acampamento de manifestantes do movimento Occupy Wall Street (Ocupe Wall Street), que vem protestando contra a crise financeira e o poder econômico norte-americano desde o início de setembro deste ano.

O filósofo nos enviou a íntegra de seu discurso para publicarmos em nosso Blog, que segue abaixo em tradução de Rogério Bettoni. Caso deseje ler a versão original em inglês, está disponível no site da Verso Books (assim como outros comentários de filósofos e cientistas sociais sobre o movimento Occupy Wall Street).

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Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?

Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…

Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.

Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…

Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?

Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.

 

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O que o movimento ‘Occupy’ tem a ver com os protestos no Brasil?

publicado em BBC Brasil, 26 de junho

Pablo Uchoa

Da BBC Brasil em Washington

Manifestantes no Rio | Foto: AP

Em fins de 2011, um acampamento do movimento Occupy do lado de fora da catedral de St Paul, em Londres, era um aglomerado de barracas que, juntas, davam a impressão de uma “feira” em que se ofereciam dezenas de mensagens, das mais variadas, contra a ordem estabelecida.

Caminhando por entre as barracas, a reportagem da BBC Brasil notava a sensação de que a mensagem genérica valia mais que o conteúdo específico ─ que a visão expressada pelo movimento suplantava a importância das reivindicações concretas dele.

Meses depois, uma nova visita a um acampamento do movimento, desta vez na capital americana, Washington, em 2012, comprovava que a articulação se afrouxava e definhava pouco a pouco.

Porém, a sua mensagem não apenas sobreviveria como voltaria à tona ao longo do ano, na corrida presidencial que opôs o democrata Barack Obama (que tentava não perder a sua aura de advogado dos 99% da população) e o republicano Mitt Romney (que os críticos acusavam de defender os interesses do 1%).

Especialistas ainda discutem as conquistas e o legado do movimento Occupy, que compartilha alguns elementos ─ apesar de diferenças importantes ─ com os protestos que se espalharam pelo Brasil nas últimas semanas.

Na semana passada, um especialista disse à BBC Brasil que a maior importância do movimento Occupy foi “energizar” mudanças no sistema financeiro que já estavam sendo discutidas, mas que subiram de prioridade por causa do clamor das ruas.

“As propostas já estavam em fase de aplicação e talvez acontecessem de qualquer maneira, mas o Occupy lhes deu mais energia”, avaliou o diretor da Escola de Política Aplicada da Universidade George Washington, Mark Kennedy.

Multiplicidade

Desde que a presidente Dilma Rousseff apresentou cinco “pactos nacionais”, especula-se se os dois movimentos podem ter fim semelhante.

Como os brasileiros, os protestos do movimento Occupy também foram comparados em sua época a uma “primavera” popular, só que contra o sistema financeiro.

Uma declaração adotada pelo movimento nos EUA em 2011 continha o que a revista New Yorker chamou à época de mais de 600 “reclamações”.

Nelas, culpavam-se as “forças corporativas” por uma vasta lista de problemas mundiais, da poluição da água ao tratamento cruel contra os animais, passando pelo problema que originou o movimento, a desigualdade.

Esta multiplicidade ─ ou ambiguidade ─ do movimento foi o seu ponto forte, e sua fraqueza. Potencializada pelo uso das mídias sociais, a organização “horizontal”, espontânea, atraiu pessoas desencantadas com a estrutura “vertical”, encabeçada por líderes.

Este caráter não deve ser erroneamente atribuído a uma falta de politização dos participantes do movimento, alertaram Ruth Milkman, Stephanie Luce e Penny Lewis, três sociólogas americanas que avaliaram a experiência do Occupy em um estudo da City University of New York publicado recentemente.

Pelo contrário, pesquisas junto aos participantes do Occupy indicaram que muitos dos manifestantes já tinha experiência em participar de manifestações ─ em geral, de esquerda, de acordo com as sociólogas.

Se havia uma crítica a Obama, era por causa do “desencanto” dos jovens com o governo do democrata.

À medida que a visão do movimento era encampada, certamente no discurso e um pouco na prática, por parte dos líderes mundiais, o seu protagonismo desaparecia. Hoje, barracas não mais ocupam as praças de Londres, Nova York ou Washington.

Impacto

Mesmo assim, as mensagens do movimento sobreviveram e tiveram impacto, na conclusão de Milkman, Luce e Lewis.

“Occupy Wall Street pode ser pelo menos parcialmente creditado por uma variedade de concessões políticas que ocorreram no fim de 2011 e início de 2012, como a extensão do ‘imposto sobre milionários’ em Nova York, a desistência do Bank of America de impor mais taxas para seus clientes e um bloqueio bem sucedido da lei contra pirataria online”, avaliaram.

Além disso, “muitos ativistas ficaram maravilhados com quanto o debate sobre a desigualdade se tornou central no discurso político nacional graças ao Occupy”.

No Brasil, ainda não está claro se as “concessões” oferecidas pela presidente Dilma serão suficientes para aplacar o ânimo dos indignados.

Mas os principais temas apontados entre as reivindicações, como educação, saúde e combate à corrupção, estão entre os temas que a presidente tem discutido com prefeitos e governadores desde o início desta semana.

Semelhanças e diferenças à parte, os jovens que saíram às ruas nos EUA, na Inglaterra e no Brasil se veem, nas palavras das sociólogas americanas, como uma “geração de jovens que obedeceram às regras do jogo e não viram os frutos dos seus esforços”.

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Analysis – Brazil riots raise questions over sporting mega-events

publicado por Reuters/UK em 26 de junho

Reuters UK análise

Activists and students stand in a cloud of tear gas as they clash with riot police outside the Mane Garrincha National Stadium in Brasilia, June 15, 2013.
Credit: Reuters/Gustavo Froner

por BRIAN HOMEWOOD

Brazilian anger against the cost of staging the World Cup could undermine the argument that host countries benefit from sporting mega-events as they become too big for most countries to handle.

UEFA’s idea of splitting the Euro 2020 championship into mini-tournaments hosted in 13 different countries could be one of the alternatives which organisers could follow in the future, analysts say.

Brazil has been hit by a wave of nationwide protests as it hosts the eight-team Confederations Cup, a dry-run for next year’s World Cup which will be staged in 12 different cities.

Although the protesters have a multitude of grievances, one of their main complaints has been the contrast between shiny new stadiums and shambolic state of public services including health, education and transport.

They are also angry that Brazil has broken a promise not to spend public money on stadiums, while failing to build many of the planned infrastructure projects.

“The stadiums for the World Cup will be built with private money,” Orlando Silva, sports minister at the time, said in 2007 when Brazil was confirmed as the host nation. “There will not be a cent of public money for the rebuilding of the stadiums.”

Instead, building work fell behind schedule and the state and federal governments had to come to the rescue.

Meanwhile, at least five host cities will miss out on promised bus lanes, metro lines or tram services and cities are now likely to declare public holidays on match days to reduce traffic, a move which critics says reeks of typical improvisation.

“What is happening right now in Brazil should be a watershed for FIFA and the World Cup,” said Simon Chadwick, professor of sports marketing at Coventry University in central England.

“It should respond by working more strategically to ensure that future World Cups are not just two-week showcases, but have a longer-term legacy for host nations.

“It some ways, it’s an acid test for FIFA and its ability as an organisation to adapt, respond and learn.”

SWISS REJECTION

“FIFA has never been especially open, direct or vociferous in accentuating legacy as an element of bidding and hosting,” he added. “Such discussions are often centred on the number of people playing the game and the development of grassroots and competitions.”

While Brazil, which also stages the 2016 Olympic Games in Rio de Janeiro, struggles to cope with the World Cup, other countries appear to be losing the appetite to stage major sporting events.

Switzerland, one of the world’s most prosperous countries, backed down from bidding for the 2022 Winter Olympics after residents of the proposed host cantons voted against it in a referendum.

The 2020 Olympics games drew only five formal bids, from Istanbul, Madrid, Tokyo, Baku and Doha.

“It is showing that major sporting events have reached a point where you need to re-discuss what is being done and what is really a legacy,” said Sylvia Schenk, senior advisor for sport at anti-corruption watchdog Transparency International.

“Even the bidding itself has become very expensive and costs millions of euros.”

Chadwick warned of “industrial concentration” where “the same small group of nations repeatedly host sporting mega events.”

“This clearly would not be good for the public and for democracy in sport,” he said. “The global economic downturn of recent years needs to sharpen people’s sense that sporting mega-events have spiralled out of control.”

Last month, a UNESCO-organised meeting of sports ministers in Berlin issued a declaration which warned of the way events such as the World Cup, European championship, Olympics and winter Olympics were awarded and staged.

It said that “many oversized stadia are not financially viable post-event” and said increasing demands on host nations “may act as a disincentive to bid for major sport events and risk excluding certain countries from the bidding for or hosting of such events.”

It also noted the trend of overbidding, described as “incurring higher costs than necessary in order to outbid competitors….and a corresponding escalation of hosting costs.”

RADICAL MOVE

UEFA made a radical move after it received only three bids to host the 24-team European championship in 2020, instead deciding to stage the contest in 13 cities around the continent, each hosting three or four games.

“There are reasons to commend it, most notably the spreading of financial risk and cost,” said Chadwick.

Host countries needed only one stadium, in some cases holding only 30,000 people. “It could be the right direction, even smaller countries usually have one stadium where they can stage two or three games,” said Schenk.

FIFA, which has already awarded the 2018 World Cup to Russia and 2022 tournament to oil-rich Qatar, has more immediate worries, as it is seen as the villain of the piece in Brazil due to the conditions it has imposed on the host nation.

Countries can only stage the World Cup if they agree to tax exemptions and enforce FIFA’s marketing rules, among other things. In Brazil’s case, this has included lifting a ban on alcohol sales in stadiums, prompting former Brazil forward Romario, now a Congressman, to say that FIFA had set up “a state within a state.”

“FIFA has been caught napping,” said Chadwick. “The global political agenda has been turbulent for some time now…..FIFA should have seen what was coming. It has advertently, although entirely predictably, become embroiled in a geo-political debate.”

(Reporting by Brian Homewood, editing by Justin Palmer)

NOTA PÚBLICA DO COPAC: SE QUEREM ACHAR CULPADOS, CULPEM A FIFA!

Nota do COPAC – Comitê dos Atingidos pela Copa (BH/MG) –  publicada no Facebook  em 26 de junho

O Comitê Popular dos Atingidos pela Copa participou ativamente de mais uma marcha em Belo Horizonte pelos direitos do povo, contra as violações e privatização do espaço público em decorrência da realização do megaevento Copa das Confederações FIFA.
A marcha decorreu de forma tranquila e pacífica até a Avenida Abraão Caram, quando um conflito de grandes proporções se instaurou entre manifestantes e polícia militar. Os manifestantes de movimentos sociais e do COPAC fizeram um cordão humano para isolar o acesso à barreira imposta pela FIFA e pelo Governo do Estado, mas algumas pessoas tencionaram a barreira física e a polícia revidou sobre toda a manifestação lançando bombas de “efeito moral”, gás lacrimogêneo e balas de borracha. Consideramos que o fato de as pessoas haverem tencionado a barreira da FIFA se relaciona à revolta da população com a realização de megaeventos de forte caráter privatista e elitista em um país marcado por tantas desigualdades sociais e necessidades prioritárias. Repudiamos, sim, a barreira imposta que é ilegítima, pois cerceia a população dos espaços da Repudiamos também a violência com que a polícia reprimiu a manifestação, uma vez que tinha plena condição de resistir às provocações de poucos manifestantes para não violar todos aqueles que saíram as ruas para lutar pelos seus direitos. Temos suspeitas, inclusive, da presença de policiais infiltrados incitando a violência para justificar uma posterior ação que visa dispersar a manifestação.
Não consideramos que os chamados “atos de vandalismo” justifiquem uma ação de repressão que coloca a vida das pessoas em risco. O COPAC, embora não promova nem estimule ações diretas contra o patrimônio, não aceita a dicotomização realizada pelo estado e pela mídia entre vilões e mocinhos. Como espaço agregador de diferentes coletivos, movimentos e grupos de atingidos pela Copa, entendemos como válidas as diversas formas de manifestação da indignação coletiva que visem objetivos progressistas e não promovam a violência direta contra as pessoas. Não confundimos pacificidade com passividade.cidade em favor da volúpia lucrativa da FIFA e das empresas a ela associadas.