Primavera Brasileira, por Ciro Gomes

A primavera brasileira

A linguagem política precisa ser resgatada. Outras expressões, valores básicos de decência, espírito público, amor verdadeiro ao povo, parcimônia, sinceridade, compromisso, projeto

Carta Capital, 26 de junho

Por CIRO GOMES

Acompanho entre maravilhado e preocupado essas expressivas manifestações populares que, cada vez maiores, acontecem por todo o Brasil. Há muitos motivos, muitas razões, muitas interferências, muito oportunismo e muita energia democrática hoje nas ruas do País.

Não importa tanto o nível de pacifismo do movimento, embora o Mahatma Gandhi e Nelson Mandela sejam mais interessantes para mim do que Joseph Stalin. Importa muito mais entendê-lo e não deixar o mundo politiqueiro brasileiro cooptá-lo, manipulá-lo, desqualificá-lo ou, muito menos, reprimi-lo.

Quando o PT se acertou com o PMDB em Brasília e submeteu praticamente todas as expressões organizadas do pensamento progressista brasileiro a esse banquete cínico e fisiológico, pensava ter praticado o crime perfeito. É isso ou a volta ao passado neoliberal privatista e antinacional, elitista e rentista. Pior, para o povão, a petezada espalhou em todos os lugares que, se perdessem as eleições, o Bolsa Família iria acabar. E a história acabara no Brasil!

Sindicatos, entidades estudantis, partidos de esquerda, o meu inclusive, artistas, intelectuais, movimentos comunitários… Tudo dominado pelo suborno ou pela chantagem. Pelo constrangimento ou, principalmente, pela falta de alternativas. Eis aí a origem dos acontecimentos. Colapsou a política. Ficou claro que o rei da ilegitimidade funcional de nossa representação política está constrangedoramente nu.

Uma atenção internacional claramente é pedida pelo povo brasileiro. Veja, humanidade, a m… que acontece aqui! Este poderia ser o slogan unificador dessa Babel maravilhosa. Não gosto muito dessa parte… Preferia que lavássemos nossa sujíssima roupa por aqui mesmo.

Não creio que a maioria seja propriamente contra a Copa. Lembro da genuína alegria do povo quando recebeu a notícia da nossa vitória na disputa internacional para sediá-la. Flagrante nessa falsa contradição entre Copa e saúde pública, Copa e educação, Copa e segurança ou Copa e transporte ou moradia, ou ainda, e especialmente, Copa e corrupção, é a inexplicável contradição entre nossa capacidade de, sob a autoritária e intrusiva supervisão da também vista como corrupta Fifa, cumprirmos exemplar e belamente toda a agenda dos estádios, acessos e organização. E não estabelecermos uma agenda planejada para atacar de forma consequente os verdadeiros problemas do nosso dia a dia.

É outra manifestação explícita do colapso de nossa política. Cadê o plano, o caderno de encargos, os prazos, as avaliações, os controles, os resultados, para nossas demandas?

Vamos dar a mão à palmatória: o Brasil navega a esmo. Não tem projeto para nada importante. A economia se deteriora a olhos vistos e Brasília só responde com favores inexplicáveis a grupos de interesse. A política movida a fisiologia, clientelismo e corrupção tem os mais incríveis protagonistas que já vi na vida. O ministro da Saúde de Fernando Collor era o grande brasileiro Adib Jatene. Jorge Bornhausen, seriíssimo e experiente, coordenava a política. E deu no que deu. E hoje? Quem auxilia a principiante, na arte, Dilma Rousseff?

Crimes perfeitos não existem. E agora? Chama o São Lula? Ridículo. Apostemos num moralismo difuso, regado a reacionarismo religioso e igualmente difusa homenagem à natureza? Chamamos um choque de gestão? Contem-me outra.

A linguagem política precisa ser resgatada. Outras expressões, valores básicos de decência, espírito público, amor verdadeiro ao povo, parcimônia, sinceridade, compromisso, projeto.

Toda impaciência se dilui diante de um plano com começo, meio e fim, com prazos e resultados previstos. Qualquer intolerância some ante a demonstração exemplar de austeridade diante das dificuldades do País.

O dinheiro dado às montadoras e transformado em criminosa e recorde remessa de lucros ao estrangeiro subsidiaria uma redução generalizada dos custos de transporte popular no Brasil. Só para dar um exemplo prático. Mas isto também não deveria ser proposto fora de um novo e esperançoso projeto nacional de desenvolvimento.

Se tal não for produzido com urgência, sabemos onde tudo pode acabar. Não raro na história humana movimentos de massa descambaram para o protofascismo ou para a violência pura, simples e estéril.

Seria uma pena.

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Por que há confrontos em manifestações que começam pacíficas?

publicado no site da BBC Brasil, atualiado em 21 de junho 

CAIO QUERO

Além dos números superlativos de pessoas que atraíram para as ruas, as passeatas e protestos que desde a semana passada tomam cidades de todo o Brasil ficaram marcadas por cenas de violência, seja pela forte repressão policial ou por atos de vandalismo cometidos por grupos isolados entre manifestantes que eram, em sua maioria, pacíficos.

Episódios como o dos feridos deixados pela forte repressão da polícia que marcou a manifestação em São Paulo no dia 13 de junho ou as cenas de guerra registradas nos confrontos em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro na última segunda-feira chocaram parte da população e foram destaque na imprensa brasileira e estrangeira.

Especialistas em psicologia, filosofia e ciência política ouvidos pela BBC Brasil afirmam que episódios de vandalismo em eventos de grandes proporções são previsíveis, mas que, no lugar de tomar medidas para prevenir a violência, polícia e outras autoridades acabaram por adotar condutas que abriram o caminho para a existência de mais confrontos.

Oportunismo

“Eventos de massa, seja a entrada e saída de estádios, grandes shows, o Réveillon no Rio, uma grande passeata ou um bloco (de carnaval) são oportunidades para ações oportunistas de predação, vandalismo, de roubo”, afirma a antropóloga e cientista política Jacqueline de Oliveira Muniz, professora do IUPERJ, da Universidade Cândido Mendes.

“Passeatas e manifestações coletivas produzem um alto grau de visibilidade política e social, razão pela qual ações vândalas e predatórias oportunistas podem se dar”, diz

Na avaliação da professora, a previsibilidade de ações desse tipo em eventos que reúnem uma grande quantidade de pessoas deveria ter feito com que não apenas a Polícia Militar, mas outras estruturas de segurança, como policiais civis, bombeiros e ambulâncias, fossem mobilizados para acompanhar as manifestações, assim como acontece no Carnaval e no Réveillon do Rio, por exemplo.

“Essa é a razão pela qual é necessário o aparato de segurança pública, para garantir e preservar o direito de ir e vir e o direito de se manifestar de forma pacífica e, ao mesmo tempo, reduzir a oportunidades de riscos, de acidentes, de incidentes, e mesmo de ações predatórias localizadas”, diz.

A professora ainda critica o modo como parte das autoridades e da mídia trataram as manifestações no início.

“Na verdade quem inaugura a ação violenta são os próprios governos, através das orientações que deram a suas polícias (…) em um primeiro momento (a atitude) foi de criminalização das manifestações populares e espontâneas. As falas eram no sentindo de que se tratava de uma grande baderna, e a sociedade respondeu indo às ruas cada vez mais, repudiando essa leitura”, diz.

Violência

Claudio Oliveira, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF), cita as ideias do pioneiro da psicanálise, Sigmund Freud, para explicar o comportamento das pessoas durante eventos em que comparecem grandes massas, como as manifestações.

Segundo ele, em situações de massas, os indivíduos acabam por tomar atitudes que não teriam se estivessem sozinhos ou em pequenos grupos.

“Há uma espécie de diminuição da pressão das inibições que constituem a vida social. O indivíduo em uma massa pode assumir um comportamento violento, ele pode assumir um comportamento que ele não teria em condições normais. Esta teoria vale tanto para o comportamento da polícia quanto para o comportamento de alguns grupos que integram a grande massa dos manifestantes”, diz.

O filósofo, no entanto, afirma que questões sociais podem fazer com que determinadas pessoas acabem por encontrar nas atitudes violentas um recurso para expressar sua insatisfação.

“No caso atual, esses fenômenos de violência ocorrem em geral isolados. A maioria dos manifestantes tem uma atitude muito pacífica, inclusive gritam palavras de ordem pacifistas. Apesar disso, parece que há alguns que buscam se manifestar a partir dessa violência. A gente precisa saber o que esses jovens pensam da própria violência que eles assumem nessas manifestações”.

Para Oliveira, no caso das recentes manifestações que tomam as cidades brasileiras, no entanto, estão em jogo também outros aspectos. Em sua avaliação, a violência com que a polícia reprimiu as primeiras manifestações contra o aumento das tarifas de ônibus serviu como uma espécie de catalisador para que outras pessoas se juntassem ao movimento, expressando outras insatisfações.

“As manifestações começaram com um objetivo muito específico, mas se tornaram manifestações onde as pessoas iam para protestar contra uma quantidade enorme de coisas, com as quais a população brasileira não está satisfeita”, diz.

Direitos

Marco Aurélio Máximo Prado, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que parte dos episódios de violência nas manifestações recentes podem também ter relação com o despreparo de polícia e outras autoridades para lidar com o modo como foram organizadas.

“Obviamente que há um despreparo da polícia para lidar com essa forma de protesto. São protestos que não tem características organizativas clássicas, então não têm liderança específica”, diz Prado, para quem a forma espontânea como foram organizados também faz com que alguns manifestantes isolados acabem por tomar atitudes violentas.

Para ele, a grande adesão e a pluralidade de bandeiras presentes nos protestos refletem uma insatisfação maior da população, com questões que passam, entre outras coisas, pelo modo como os grandes eventos como a Copa do Mundo estão sendo organizados no Brasil.

“As cidades que são sedes da Copa (das Confederações) estão vivendo uma certa suspensão dos direitos, do direito de protesto, que é um direito básico da democracia, e do direito de ir e vir”.

“Há uma certa suspensão de direitos conquistados que está gerando uma faísca importante. Agora eu considero que esses atos políticos não são atos de negociações, são atos de rebeldia civil. São um sintoma de que a constitucionalidade não está funcionando, são um corretivo de um norma que não está funcionando, que está falha”, diz.

Militante de extrema direita se diz arrependido e denuncia esquema de manipulação das passeatas – denúncia é investigada

publicado no Conexão Jornalismo em 24 de junho.

Da redação

 

Conexão Jornalismo acaba de receber o que seria o relato de um “integralista arrependido” que, diante da sucessão de violência de ativismo golpista deflagrado pelas manifestações, na qual seu grupo e outros mais estariam infiltrados, teria decidido denunciar e se afastar. Identificado como “Marcio Hiroshi”, o homem de 43 anos divulga também fotografias de encontros dos Integralistas e fala sobre os planos para afastar partidos de esquerda dos movimentos e provocar o caos. Diz ainda que policiais ajudariam o grupo e que alguns seguidores receberiam dinheiro para difundir as idéias no Facebook.

Conexão Jornalismo encaminhou as denúncias para as autoridades do Estado a fim de que possam ser apuradas e dadas a ela o caminho necessário para seu esclarecimento. O papel de informar e zelar pela boa política e a plena democracia é uma preocupação constante de Conexão Jornalismo. 

Conexão Jornalismo encaminhou também para a Polícia Militar do Rio de Janeiro o link com as denúncias contra os ditos “Integralistas” por conta da referência a um suposto envolvimento de policiais militares do Serviço Reservado no movimento que é ilegal. 

Uma cópia do material foi encaminhada, entre outros, para o gabinete do deputado Estadual Marcelo Freixo (Psol). Leia na íntegra a carta.

dowload dos arquivos (corre risco de ser apagado em breve) 

perfil do integralista arrependido 

post com o relato original 

perfil do chefe

ESTOU DENUNCIANDO!
URGENTE – LEIAM TODOS – O BRASIL CORRE RISCO!
Meu nome é Márcio Hiroshi. Sou membro do Movimento Integralista há 5 anos.

Sempre acreditei no Integralismo como forma de mudar o país. Mas o que venho narrar aqui me fez refletir e romper com o Movimento.

Desde que as manifestações começaram temos nos reunido todos os domingos para traçar rumos de ação de nosso movimento. A ação é pautada em TUMULTUAR, EXPULSAR OS PARTIDOS DE ESQUERDA E ACABAR COM AS PASSEATAS PROMOVENDO A DESORDEM. Por que isso? Para acabar com as mobilizações dirigidas pela esquerda.

Neste último domingo, as posições definidas pelo grupo me fizeram sair e denunciar o que está havendo. Como prova da veracidade dos fatos estou divulgando fotos e nomes de meus comandantes
1 – Os integralistas estão desde os primeiros dias nas passeatas.
2 – A linha de atuação do grupo é TUDO PELO BRASIL, retirar as bandeiras dos partidos de esquerda e prevalecer a do Brasil.
3 – Nas manifestações gritar SEM PARTIDO e expulsar os partidos de esquerda.
4 – Há um núcleo político e um núcleo de ação.
5 – O núcleo político inicia a agitação e o núcleo de ação intervêm batendo nos militantes.
6 – Há o movimento fortemente organizado em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, BH e outras cidades.
7 – O objetivo é acabar com as passeatas, sempre tumultuando.
8 – Nas reuniões somos ajudados por pessoas do serviço reservado da PM e por dirigentes do PSDB, DEM e outros deputados e vereadores (depois direi nomes e fotos). Estes partidos nos financiam.
9 – Em São Paulo os carecas de SP e Carecas do ABC são pagos para nos ajudar a bater e a gerar grande desordem. Eles são do núcleo de ação. De início eu participei ativamente do núcleo de agitação. Estava em São Paulo (onde moro) e todos íamos sempre para outras cidades, pois as datas não eram conflitantes.

O que me fez sair do grupo? As ações previstas agora estavam sendo muito violentas, onde teve gente que que quebraram o braço, machucaram bastante. Meu chefe de agitação é Marcelo Coradassi Eiras. Ele aparece nas fotos à direita, onde estamos em Anauê. Em breve irei revelar mais nomes e endereços de todos.

Estou publicando as fotos de nossa reunião ocorrida sábado e domingo em SP e Rio. No domingo, na parte da manhã fomos bater fotos no Viaduto do Chá. Nas fotos estão apenas o núcleo de agitação. O núcleo de ação está atrás de quem tira a foto, pois não queríamos que os carecas aparecessem.
Nas passeatas o núcleo de ação está sempre com a máscara do mascarado do filme V, o anonymous. Nosso grupo tem influência em diversas páginas do Facebook, incluindo esse, onde revelarei todas em breve.

Também falarei de nosso financiamento e de quem recebe dinheiro, pessoas, páginas do Facebook, etc.
Em breve mais informações, pois quero que todos divulguem ao máximo o que está ocorrendo. Neste momento sou jurado de morte e não sei o que fazer para me proteger. Tenho 43 anos e fiz a minha parte do que considerei errado.

Tudo pelo Brasil!

 

 

 

 

The Last Word: Mr Blatter, the party’s over

publicado no site do jornal The Independent em 23 de junho.

The Last Word: Mr Blatter, the party’s over

Brazilians riot against football and Pele is ridiculed – the end is nigh for costly World Cups and Olympics

MICHAEL CALVIN

The beautiful game is up. When Brazil is conditioned to hate the World Cup and its people traduce Pele as a traitor, football has lost its relevance and its reason. International sport may never be the same again.

Revolutions are sudden, instinctive and deadly. Empty rhetoric, regurgitated by grandees such as Sepp Blatter, has been rejected by those who want schools and hospitals rather than bread and circuses. It is hard to avoid the conclusion a tipping point has been reached.

Violent images from Brazil, of demonstrators silhouetted by flames and riot police using rubber bullets and pepper spray to suppress mass protest, have a relevance beyond the current Confederations Cup, next year’s World Cup and the 2016 Olympics in Rio. Once major sports events become a focal point for social unrest and political opportunism, in the way such global governmental summits as G8 attract activists, they are an embarrassment rather than an embellishment to a nation’s image.

Little wonder the invisible army of sleek-suited parasites who have subjugated sport to their own commercial ends are terrified; sponsors and TV executives will peer into the abyss and recognise the toxicity of their situation.

Should they revert to type, the men who run organisations such as Fifa and the IOC will only trust themselves to partner undemocratic and unyielding regimes. The natural extension to football’s World Cup cycle, following dubious staging posts in Russia and Qatar, is to pitch up in North Korea.

Yet they are deaf to those who resent their irreconcilable privileges. Fifa made in excess of £2 billion from the 2010 World Cup, leaving South Africa’s fragile economy to underwrite building programmes, infrastructure projects, policing and security strategies. London’s Olympic legacy is negligible.

The World Cup, like the Olympics, is collapsing under the weight of its pretension. When Blatter lectured protesters for threatening football’s “spirit, essence and integrity” he was reminded that he succeeded a Brazilian, Joao Havelange, who was exposed as corrupt and despotic.

As the discredited president of a discredited organisation, Blatter acted in character by scuttling away from the protests of two million citizens, galvanised by the inequalities represented by sports events which have become too big, too costly and too grandiose in times of economic hardship.

He was blind to the irony of his refuge, Turkey, whose hopes of staging the 2020 Olympics have been swallowed by the flames of simultaneous internal unrest, timed to coincide with the Under-20 World Cup. Fundamental change is in the air.

The fate of Pele informs us of the limited power of legend. The sense of betrayal and the subsequent loss of respect when he vilified demonstrators as “bandits and bad people” was profound. Romario, a World Cup winner turned congressman, dismissed him as “a poet, when his mouth is shut”.

Footballers are becoming politicised. The Brazil players David Luiz, Dani Alves, Hulk and Fred spoke in unison, supporting those who took to the streets. Neymar accused his government of ignoring their “obligation” to the Brazilian people.

The game has been a source of pride, a unifying factor in a disparate country. The passion remains – many players were on the verge of tears when a sell-out crowd sang an a capella version of the national anthem before the recent win over Mexico – but the poison must be extracted. Blatter and his cronies should be consigned to the dustbin of history as soon as is convenient.

It’s hard to lose a leader like Cram

Bureaucrats breathed a sigh of relief yesterday when Steve Cram announced his intention to step down as chairman of the English Institute of Sport.

It is a decade too late for those whose shortcomings were exposed by the former world-record holder’s insight, intelligence and political nous. I’ll declare an interest. Cram and a visionary named Wilma Shakespear persuaded me to take a five-year sabbatical from scribbling to help set up the EIS.

It was an instructive process. No sooner had we been empowered to oversee a strategic vision for supporting Olympic athletes than there was a concerted attempt to kill the organisation at birth.

Establishment figures sent in shamefully expensive management consultants to waste time and money which would have been better invested in a new generation of sport scientists.

We survived, and thrived. A new culture has been developed by young, fiercely committed and impeccably qualified support staff, who make the critical difference.

The EIS have more than 200 practitioners, who worked with 86 per cent of the Team GB medallists at the London Olympic and Paralympic Games.

Without Cram, that would not have been possible. He is precisely the sort of leader British sport cannot afford to lose.

Bonito – Caetano Veloso

O Globo 

 23/06/2013

Os recuos — primeiro na repressão e, depois, no preço das tarifas dos ônibus — reafirmam, em vez de desmentir, a falta de inspiração dos governantes

Acabo de chegar a Natal e, ao abrir o Yahoo para ler e-mails, fico sabendo que Dilma não vai ao Japão agora porque as movimentações das ruas brasileiras demandam sua presença. Um amigo me escreve que ela vai reunir-se com os ministros. Outro me reenvia um longo texto em que uma moça de São Paulo mostra-se paranoica com os usos a que o movimento está se prestando: para ela, palavras de ordem “vazias”, tipo “abaixo a corrupção”, revelam um conservadorismo velho conhecido. Pelo que ela diz, a agenda do MPL foi esquecida, afogada no estilo anódino que as manifestações ganharam desde que a mídia decidiu incentivá-las em vez de rechaçá-las, como tinham feito a princípio. Ela descreve aspectos nada anódinos do fenômeno: nota que ninguém agredia o governador Alckmin, enquanto muitos insultavam os nomes de Dilma e Haddad. Diz-se de esquerda e teme um golpe, alertando para o fato de que a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil é a mesma que servia no Paraguai quando do “golpe contra Lugo”. Lendo rápido, observo, de cara, que ela nada diz sobre os cartazes de protesto contra a PEC 37. Para não falar de frases como “Meu cu é laico”.

É interessante ler o que ela narra de suas andanças pelas ruas, pontes e estações de metrô de Sampa. E a desconfiança de que as manifestações podem estar sendo roubadas por forças da direita não soa absurda. Mil posturas podem aparecer em meio a essas multidões. E uma saída às ruas de tão grande número de pessoas (e a simpatia da maioria da população por elas) pode produzir efeitos importantes. E isso mais no Brasil (e nos países árabes) do que nos EUA ou na Inglaterra. É o monstro de Gaspari/Juscelino. Até aqui, os governantes imediatamente atingidos reagiram mal. Alckmin e Haddad, num primeiro momento, mostraram fazer a mais errada das avaliações. Os recuos — primeiro na repressão e, depois, no preço das tarifas dos ônibus — reafirmam, em vez de desmentir, a falta de inspiração deles e dos outros que os seguiram. Vimos ruas demagogicamente despoliciadas e rebaixamento dos preços oferecidos como ameaça aos serviços de saúde.

Três outros textos que li (e, tal como o da paulistana, nem sequer pude digerir direito) falam igualmente da domesticação do grande acontecimento pela apenas um pouco tardia conversão da mídia (sobretudo a Rede Globo) a seu favor. Mas esses são textos mais intelectualizados. Neles encontrei, não um esboço de defesa do PT e dos governos “de esquerda” da América Latina, mas um depoimento do transe que foi ser arrastado pela imprevisível mobilidade flexível dos corpos na ruas do Rio. Um dos autores se vê sendo levado até a Alerj, sem que tenha tido tempo de pensar. Toda a sua linguagem exala um apaixonado foucaultianismo, a veraz narração de sua experiência (realmente forte como texto) vem eivada de palavras-chave do pós-estruturalismo francês: o “corpo” nietzscheano retomado por Deleuze e pela “política do corpo”, que ecoa nos livros de Toni Negri. A impressão que dá é de que o autor carioca deslumbra-se por estar vivenciando tudo aquilo que ele amava na literatura desses filósofos. Mas não que isso destrua a força da reavaliação dos atos ditos vândalos, praticados por aqueles encapuzados que vimos na TV, que seu texto sugere. Não. A gente percebe que a violência da destruição direta das ferramentas concretas do poder instituído tem papel propriamente político importante — e não apenas o de ser pretexto arranjado para justificar golpes.

Estamos no meio dessa complexidade fascinante, exaltante e aterradora. Vi os atos violentos em Salvador, direcionados sobretudo ao estádio de futebol. A polícia afastou os manifestantes das imediações da Arena Fonte Nova (que, com meia casa, torcia acaloradamente pelo time da Nigéria), mas no centro da cidade o tema dos gastos com os eventos esportivos dava a tônica. Na véspera, eu tinha assistido àquele passe de Neymar que resultou no segundo gol do Brasil contra o México. Neymar saiu do armário. O drible que ele deu nos adversários antes de passar, com precisão absoluta, a bola para Jô golear, foi tudo o que desejamos que qualquer coisa produzida por brasileiros seja. Com os ânimos divididos, dentro da gente, com relação à preparação do país para a Copa, entre simplesmente apoiar o gesto que esboça demolir os estádios (pelos modos suspeitos como foram erguidos, pela omissão de possível contaminação de áreas a eles adjacentes, pelo, enfim, mero fato de que outras prioridades gritam) e torcer pelo renascimento da grandeza de nosso futebol, o jogo de Neymar ensina que o movimento emaranhado das ruas tem de achar o jeito inspirado de acertar no melhor. Que saibamos chegar ao mais bonito.