Virulência

JORNAL O GLOBO, 21 de junho de 2013

Virulência – José Miguel Wisnik

Na Europa, marcos históricos são as guerras, no Brasil, as Copas do Mundo

Vou falar de um aspecto, entre os muitos, dos movimentos de rua que estão dando um baile nas instituições políticas e nos esquemas disponíveis para explicá-los. Diz o escritor inglês Alex Bellos que, se para os europeus os marcos da memória histórica do século XX são dados pelas Guerras, no Brasil são dados pelas Copas do Mundo. A afirmação sinaliza de maneira ambivalente o quanto a paixão do futebol deu forma à identidade e à memória coletiva brasileira, ao mesmo tempo em que sugere o quanto ela é pautada tradicionalmente pelo jogo, pelo lúdico, e não pelo enfrentamento das realidades. A comparação ganha uma outra atualidade agora, quando o ensaio da Copa do Mundo através da Copa das Confederações vem acompanhado de uma guerra, real e simbólica, onde está em jogo o custo social da tarifa de ônibus, o custo social da Copa do Mundo, o custo social e político do Brasil. Uma inesperada junção à maneira brasileira de guerra com Copa, por isso mesmo muito nova.

O movimento, ao mesmo tempo pacífico e virulento, e de uma irradiação inimaginável, vem cobrar o preço de velhas e novas inconsequências políticas. Não creio que a sua relação com a Copa seja ocasional, muito menos oportunista. Mais profundamente, faz sentido que o impulso na direção de um algum acerto brasileiro acabasse passando pela prova e pela contraprova do futebol.

Ninguém certamente imaginou isso quando trouxe a Copa do Mundo para o Brasil: que os componentes da droga brasileira, o remédio lúdico e o veneno das desigualdades, das impunidades e dos privilégios, das conciliações pelo alto e do imobilismo político, entrariam em reação alquímica nas ruas. Pois, se não fosse o cenário da Copa, as manifestações não ganhariam a extensão e a dimensão simbólica que vêm ganhando. Esses temas estão postos faz muito tempo, mas é sabido que eles tradicionalmente não mobilizam.

De repente, o movimento pela redução ou suspensão das tarifas de transporte coletivo funcionou como a senha involuntária — literalmente o passe livre — para abrir a catraca em cascata das outras questões. O passe livre era o disparador ao mesmo tempo concreto e genérico, particular o bastante por envolver o orçamento apertado da maior parte da população que o utiliza diariamente, mesmo que não de muitos dos manifestantes, e geral de sobra por envolver a ineficiência do transporte coletivo e dos serviços públicos, bem como a crise urbana e a aposta sem saída na cultura do automóvel. A percepção do aumento da tarifa de ônibus como sintoma inflacionário a ser suportado por quem já se desacostumou do custo da inflação, que incide sobre os mais pobres, certamente teve influência. Francisco Bosco disse aqui, citando Luiz Eduardo Soares, que assistimos possivelmente ao salto participativo de uma camada social que já tem o que perder. E que já seria, portanto, a resultante de FHC e do lulo-petismo, cobrando dos governos e da cena política nauseantemente pautada pelos arranjos acomodatícios as consequências mais modernas de seu status de consumidor de bens e serviços, incluindo a pulsão juvenil por uma participação na primavera internética dos povos.

E é no cenário dos estádios superfaturados (o de Brasília custou mais de um bilhão e apresenta um gramado de segunda categoria), dos candidatos a elefantes brancos, da incongruência entre os padrões impostos pela Fifa e os padrões da educação e da saúde públicas, tudo recoberto por um discurso triunfalista cada vez mais indigesto, e contracenando com a onipresença sedutora do futebol, que as manifestações encontram uma espécie de correspondência alegórica com a política nacional como um todo.

Quem me conhece sabe o quanto eu amo o futebol (assim como Nuno Ramos na mesa redonda do IMS, eu também tenho uma resistência infantil a torcer contra). Mas estava profundamente desanimado com o fato sintomático de que estivéssemos condenados a ver todas essas aberrações passar incólumes e sem susto, agora, na Copa e nas Olimpíadas. Sei que o clamor urgente, heterogêneo, sem plano claro, fortemente apartidário, canalizando insatisfações de todo tipo, inclusive as conflitantes entre si, não garante nada, pode consumir-se nas suas contradições, no fogo de palha de um consumismo de protesto, no voluntarismo sem mediações, no tudismo já, na fantasia de onipotência e num estado pré-político que acaba vencido pelas eternas raposas (Haddad não é uma). As manifestações, aliás, já são elogiadas por Alckmin, Dilma, Galvão Bueno, e em uma semana são unanimidade: ninguém é contra.

Sei disso, mas não é isso que eu sinto. O que sinto é o alento de um acontecimento capaz não só de dar um susto, mas de mexer no quadro político brasileiro. O que leva a isso não é a violência pontual que ele desencadeia, mas a sua luminosa virulência.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/virulencia-8774570#ixzz2X8sb5hPC

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